Capricho 1040
Editoria: Sexo
Matéria: Prova de amor

A editoria “Sexo” tem uma proposta diferente das outras. O texto é um bate-papo entre uma editora e algumas meninas comuns de 14 a 17 anos. O formato do texto também é irreverente: a cada edição ele se adapta ao conteúdo da matéria. Nesta edição, que trata da questão “quem ama tem que estar pronta para transar?”, o texto veio em forma de coração.
Essa editoria, por contar com a participação direta das leitoras, tem também um apelo direto com o público, pois são meninas comuns, como as outras que estão lendo, que determinam o tom da conversa. O texto, todo escrito como se o público estivesse lendo um chat na internet também gera uma identificação muito forte com ele, já que é uma forma de comunicação muito presente na vida das leitoras. Além disso, esse formato bate-papo dá idéia de espontaneidade – como se a conversa estivesse acontecendo no momento da leitura – e o trabalho de edição fica bem camuflado.
As participantes desta edição discutem se fazer sexo é prova de amor, e a maioria das meninas acredita que não, mas uma delas já acreditou nessa história. Outra acredita que se sentir preparada para transar com o garoto significa que ela o ama. Quando a editora pergunta o que é se sentir pronta, as meninas respondem que é amar o menino, se sentir à vontade com ele. A maioria também acredita que quando o menino espera o momento da menina, ele está dando uma prova de amor, porque é mais difícil para o homem ficar sem sexo. Outras provas de amor, para elas, são fidelidade, respeito, companheirismo e, como disse Bruh, todo o conjunto.
Abaixo do texto, algumas estatísticas mostram que 37% das meninas acham que transar pode ser uma prova de amor; 63% acham que alguém pode amar, mas não estar pronta para fazer sexo; e quase metade das meninas acredita que a maior prova de amor é a fidelidade.
A questão de o sexo ser prova de amor é uma constante nas revistas adolescentes, já que as meninas estão começando as suas experiências sexuais. Nessa matéria, pode-se notar que as meninas só se julgam prontas para isso quando amam o parceiro. Trata-se de uma relação idealizada com o sexo, porque está cada vez mais comum o sexo sem compromisso. De qualquer forma, considerando que elas se julgam preparadas quando amam o menino, é de se esperar que o sexo seja considerado uma prova de amor para elas. Nas estatísticas é possível perceber, no entanto, que muitas meninas separam o momento de fazer sexo do amor.
Há também, no texto, a idéia de que o menino dá uma grande prova de amor quando respeita o tempo da menina para o sexo. Para as participantes do bate-papo, um homem tem dificuldades para se segurar. Gambita diz, inclusive, que chega um momento em que a excitação é mais forte e que o menino vai procurar outra pessoa se a namorada não for para a cama com ele.
É reforçada a idéia, portanto, de que é da natureza do homem querer sexo com muito mais freqüência que a mulher, e que esperar o momento da menina é um esforço sem tamanho para um menino. O sexo, durante todo o texto, é considerado um momento de cessão ao homem, e nunca um desejo da adolescente. Apesar de todo o espaço que se dá nas revistas para esse público, as meninas ainda não expressam seus desejos e colocam o sexo como mais um mecanismo de conquista do seu namorado.

Editoria: Entre eles
Matéria: É melhor caçar ou ser caçado?
Esta editoria também tem uma proposta irreverente: trata-se de um bate-papo entre alguns meninos para mostrar ao público feminino o que o mundo dos homens pensa sobre determinado assunto. A idéia é colocar uma conversa entre homens à disposição das mulheres, para que elas possam entender melhor o outro sexo, e agir corretamente em relação a ele.
A discussão nesta edição é se os meninos preferem que a garota tome a iniciativa para conversar com um menino ou se é melhor ela deixar que ele a procure. Dos três meninos que constroem o texto (novamente aqui se nota a participação direta dos jovens, com interferência “invisível” dos editores da revista), dois são contra a menina tomar a iniciativa. Para eles, uma menina que puxa assunto com um menino é oferecida e, como a primeira impressão é a que fica, eles vão pensar que ela faz isso com todos. Já Renato acredita que essa idéia é ultrapassada e que as meninas têm tanto direito quanto os meninos de correr atrás do que desejam.
Os meninos que gostam de “caçar”, usando o termo da revista, dizem que uma menina pode expressar o seu desejo com gestos e olhares, e que a iniciativa dela só serve para levantar o ego dos meninos. Já Renato acredita que a iniciativa das meninas ajuda meninos tímidos, como ele. Para eles, existem meninas que gostam de “dar um fora” só para se fazer de difícil, mas Renato, de novo em defesa das mulheres, diz que existem homens que fazem o mesmo.
A matéria mostra uma ligeira vantagem dos meninos que preferem tomar a iniciativa. Por outro lado, é a fala de Renato, que defende a iniciativa das mulheres, que põe um ponto final no texto. Para as leitoras, nenhuma conclusão definida. Talvez, a conclusão seja de que alguns meninos concordam e aprovam a iniciativa delas, mas que boa parte ainda prefere que ela tenha uma postura passiva. Mais uma vez, o desejo da adolescente fica reprimido, já que a sedução por gestos e olhares só pode acontecer com um menino que já está olhando para ela. Ou seja, o que a menina pode fazer é escolher se aceita ou não a paquera de um menino.
A legenda que diz: “pretende dar em cima de um destes 3? Vá com calma!” deixa claro que a opinião hegemônica dos meninos é que eles preferem tomar a iniciativa. É difícil que alguma menina tenha resolvido mudar sua conduta passiva depois desta matéria. Mas é bem provável que as meninas mais “ousadas” tenham ficado inseguras depois de ler o texto.

Capricho 1043
Editoria: Sexo
Matéria: Tá pensando o quê?

Esta editoria, nesta edição, discute o que as meninas pensam quando estão fazendo sexo ou tendo um “amasso” com alguém. A ilustração é a cabeceira de uma cama e dela, o texto sai em forma de balão de fala. As meninas de 14, 15, 16 e 17 anos conversam com a editora-assistente sobre as preocupações que ocupam sua cabeça no momento do sexo.
A maioria das meninas diz que tentam não pensar em nada além do momento. Uma logo esclarece que não pensa em fantasias sexuais. Outra diz que pensa se o menino está “avançando o sinal” no momento do amasso. Segundo as estatísticas presentes na matéria, 38% das leitoras já pensaram no ex-namorado enquanto beijavam o atual namorado. Anny conta para as leitoras que quando isso aconteceu, ela contou par o menino com que estava, pois ela considera a sinceridade muito importante. Já Mila defende a liberdade de pensamentos; “eles podem fluir”.
Entre as preocupações que acontecem na “hora H”, as meninas citaram a preocupação de a camisinha estourar elas ficarem grávidas ou pegarem alguma doença. Além disso, as estatísticas também apontaram que 38% delas estão preocupadas em agradar o parceiro. As preocupações com a própria aparência também acontecem e, segundo as meninas, atrapalham o momento.
Pode-se notar nesta matéria a atenção que se dá à camisinha, já que o público leitor precisa saber que ela protege contra doenças e a gravidez. A preocupação em agradar o parceiro novamente está presente, assim como na matéria que discute se sexo é prova de amor (Capricho 1040).
A discussão entre as meninas não teria chegado às preocupações que acontecem no momento do sexo se a editora não tivesse levantado o assunto. Antes disso, todas as meninas frisavam que ao pensavam em nada enquanto faziam sexo e, no final do texto, algumas voltaram a dizer isso. Entre um “não penso em nada” e outro, algumas “encanações” escaparam, como a de estar gordinha, ou a de que alguém vai chegar e surpreender o casal.
No texto, de forma geral, as meninas não revelaram muito do que pensam e uma delas fez questão de dizer que não tem fantasias sexuais. Pode-se notar que mesmo que sexo não seja mais tabu, algumas coisas sobre ele ainda não são ditas.

Editoria:
Matéria: Minha segunda vez

A matéria “Minha segunda vez” contém um aviso de que ela pode ter material inadequado para menores de 14 anos. Tendo em vista que o público da revista é adolescente, é difícil imaginar que uma menina de 14 anos vá pulas essas páginas. No entanto, é papel da revista colocar esse tipo de aviso.
Esse texto se destina a desfazer a má impressão da primeira vez de uma menina que não aconteceu como ela queria. A repórter começa explicando que a idealização desse momento é o que gera as frustrações. É importante notar que a revista tem uma participação nessa idealização, pois recheia suas páginas com matérias sobre o verdadeiro amor e o que fazer para que tudo dê certo no relacionamento. Esse texto, portanto, tenta reverter uma situação que a revista ajuda a criar.
Para exemplificar que nem tudo está perdido quando a primeira experiência sexual não dá certo, a revista coloca três histórias de meninas que foram enganadas na primeira vez, ou forçadas a fazer sexo com um menino mesmo não estando prontas, ou interrompidas por alguém que chega ao quarto. Mesmo depois desses problemas, as meninas encontram outros caminhos que as levam a boas experiências sexuais.
O primeiro depoimento, “Fiquei com verginha de dizer não”, já deixa claro a primeira coisa que a revista não quer que aconteça: que uma menina tenha relações sexuais sem se sentir preparada para isso. Nesse contexto, não dizer não já é sinal de que a experiência não será boa. A menina explica que “ficou” com o garoto porque ele era popular, ou seja, porque ficar com ele garantiria a ela status. Ela usa a palavra “boba” para dizer que se apaixonou. Com isso, tenta parecer racional. Quando conta a experiência da segunda vez, há novamente a idealização: o namorado que espera o tempo da menina e que diz “eu te amo” no momento do sexo.
No segundo depoimento, Roberta conta que ficou nervosa por estar nua na frente do namorado, que sentiu dor e que se assustou porque um amigo do namorado bateu à porta. Já na segunda vez, ela diz que não doeu e que estava mais à vontade. Novamente a palavra “boba” é relacionada com “apaixonada”.
O terceiro depoimento, “Sofri muito com a dor e sangrou”, é mais dramático. O menino “não era boa pessoa” e se aproveitou dela. Sumiu depois que conseguiu o que queria. Ela conta que a primeira vez foi “horrível”, que sentiu muita dor e “ainda sangrou um pouco”. O sangue, nesse texto, está relacionado com a dor, como se ele a tivesse machucado. Sabe-se, no entanto, que mesmo que não doa, o rompimento do hímen causa sangramento e que se ela sentir dor alguma outra vez, provavelmente não vai haver sangramento. A relação entre dor e sangue é o que traz a dramaticidade do texto.
Na sua segunda vez, a menina diz que “acabou cedendo” e que foi maravilhoso, com direito à ligação do menino no dia seguinte. Conclui-se, do texto, que o sexo só aconteceu, nas duas vezes, por desejo dos meninos. E há a idealização de que a boa experiência sexual inclui uma continuidade no relacionamento, com a ligação no dia seguinte e o começo do namoro.
Durante toda a matéria, existem boxes que explicam porque a primeira vez normalmente não é boa, e a expectativa é o primeiro fator. Outro box explica porque a segunda experiência é melhor que a primeira. Um terceiro box lista o que é necessário par se ter “uma transa legal”: além de trocar experiências com amigas e ginecologista, é importante que o garoto goste da menina e que ela se sinta à vontade com ele. Para finalizar, a repórter coloca que a hora certa de fazer sexo é quando a menina sente muita vontade de ir além dos “amassos”. Aqui é a primeira vez que o desejo da menina é levado em conta.
A revista não considera o sexo sem compromisso como uma boa experiência, frisa a importância da proteção e considera o amor a primeira determinante par o sexo dar certo.

Editoria:
Matéria: Surpresa no amor

Trata-se de mais uma matéria toda feita baseada na participação das leitoras. O texto é uma enumeração de depoimentos de jovens que contaram à revista as demonstrações de carinho que seus namorados deram a elas. Aparecer de surpresa no aniversário, fazer declarações de amor em público, mandar flores para a menina na escola, escrever músicas para a amada são os exemplos da matéria. No fim do texto há um box com dicas para as meninas agradarem os meninos.
Toda a tônica da matéria, com ilustração meiga, é um grande alimento para a idealização de um relacionamento. Esperar que o namorado faça as mesmas coisas que foram relatadas no texto é criar uma expectativa que, a realidade confirma, trará frustrações. A matéria faria sentido se os namorados a lessem, não as namoradas. Até porque se a menina pedir uma demonstração como as citadas para o namorado, não será mais surpresa.
O box do fim do texto é, também, muito contraditório. Ele dá dicas para as meninas demonstrarem seu carinho depois de terem lido, suspirado e imaginado que seus companheiros fariam algo parecido para elas. Para realizar as idéias dadas nesse box, a menina ainda tem que tomar cuidado para não parecer que está exagerando, perseguindo o namorado.
Uma das dicas é cozinhar para o namorado; como que adivinhando os pensamentos da leitora, um aviso: “Calma, não é para voltar à década de 50”. Com uma sugestão como essa, depois de ter mostrado que existem namorados que aparecem de surpresa trazendo chocolates, é de esperar que a leitora fique um tanto decepcionada.

Capricho 1041

Editoria: Dicas Para...
Matéria: ...chegar no seu amigo

Como o nome da editoria sugere, trata-se de uma seção com dicas para a menina. Essa matéria em particular dá dicas de como a menina deve "chegar" no amigo de quem ela gosta: observar as atitudes dele com relação a ela; mostrar-se como mulher, não apenas como amiga; provocar ciúme; declarar-se - apenas se ele não estiver namorando, senão seria desrespeitoso; afastar-se caso o menino não queira nada com ela.
O texto é dividido em itens, como uma espécie de guia passo-a-passo do que deve ser feito. Ele é escrito em linguagem bastante informal, contém muitas gírias e "conversa" diretamente com a leitora.
As matérias dessa editoria geralmente mostram a foto de um menino, chamado "expert", contendo um brevíssimo perfil com nome, idade, algo que ele adora numa menina e algo que ele não gosta em uma menina.

Editoria: Entre Eles
Matéria: É chato quando ela é tímida?
Nesta matéria, três meninos falam o que pensam sobre a pergunta do título. Rafael, o primeiro a falar, diz achar muito chato quando ela é tímida. O segundo, Rodrigo, a princípio também pensa assim, mas acaba concordando com a afirnação de Matheus de que a menina tímida dificilmente cometeria uma traição. Eles acabam relacionando algumas vantagens e desvantagens em se ter uma namorada tímida. Matheus diz que, para um relacionamento sério, prefere as tímidas, já para "curtir", as ousadas são melhores. Isso é uma variação daquele pensamento um tanto quanto machista de que existe um tipo de mulher para se divertir e um tipo de mulher para se casar. Não é possível saber se a maioria dos meninos prefere as tímidas ou as ousadas, mas a última fala dá a entender que eles não gostam de falsidade, quando Rafael afirma que "ainda mais chato do que garota muito tímida é aquela que faz tipo", ou seja, a menina que se faz de tímida mas no fundo não é. De acordo com ele, elas não conseguem enganá-los por muito tempo e logo são descobertas.

Editoria: Sexo
Matéria: E se ele me abandonar?

Nesta matéria, há uma conversa da repórter com algumas meninas entre 14 e 17 anos. Elas conversam sobre seus receios com relação ao que pode acontecer depois que elas fazem sexo com o menino. Os principais medos são o de ser usada e abandonada e o de ficar malfalada. Uma das meninas relata que sua primeira vez foi com um rapaz que conheceu pela internet. Ela diz que depois disso, ele ficou diferente e evitava conversar (via 'chat') com ela e que isso a fez sentir-se muito mal. A repórter questiona se é possível previnir o sofrimento. Elas dizem que é preciso estar segura de si e, caso ocorram eventuais mágoas, deve-se seguir em frente sem ficar sofrendo muito por isso.
Todo o texto é apresentado como uma conversa de 'chat', sendo que o conjunto forma a imagem de uma mala, remetendo à idéia do abandono pelo outro - que sumiu, viajou, mudou-se.
As estatísticas apresentadas afirmam que 82% tem medo de serem abandonadas depois de "transar com o cara", 33% tem medo de ficarem malfaladas e 40% acham que para se evitar isso é necessário conversar muito com o parceiro.


Análise da revista Capricho

A revista Capricho é direcionada ao público feminino adolescente, cuja faixa etária varia entre 11 e 19 anos.

A estratégia de comunicação da revista é aproximar-se ao máximo de suas leitoras trazendo assuntos que muitas vezes não são tratados em casa no convívio com os pais, como virgindade, namoro ou o conceito de homem ideal. Sendo assim, a publicação torna-se uma preciosa fonte de informações e de compartilhamento de experiências. Outros tópicos também são bem explorados no desenvolvimento da revista. Moda e penteados são assuntos tradicionais e constroem a imagem da adolescente de acordo com os padrões atuais veiculados principalmente nas telenovelas direcionadas a esse público como, por exemplo, Rebelde (exibida no Brasil pelo SBT) ou Malhação (Globo).
A linguagem utilizada nas reportagens é geralmente informal. Gírias, grafias e codinomes usados nos bate-papos virtuais também compõem o texto, gerando um clima amistoso entre revista e leitora, com intuito de promover uma leitura bem humorada e de fácil entendimento. Conversas entre adolescentes que expressam opiniões a respeito de um tema específico são publicadas constantemente, compondo grande parte da edição e funcionando como dicas para as leitoras. Testes para descobrir como prender um namorado ou testes similares são comuns e fazem parte do conteúdo dinâmico do periódico.
O meio artístico e seus modelos, cantores e atores, entre outros, são os personagens mais presentes na comunicação visual. A capa da revista traz sempre um desses artistas como destaque e seu estilo de vida é utilizado como exemplo de ideal a ser seguido.
Utilizando as palavras dos próprios adolescentes em várias matérias, a revista consegue retirar a imagem imperativa que, na visão do público-alvo, quase sempre está presente nas opiniões proferidas por adultos, principalmente quando o assunto refere-se a novas atitudes de comportamento. A forma de comunicação entre a revista e seu público é uma receita de sucesso neste segmento.
O visual colorido com tons vivos predomina nas reportagens e propagandas. A cor rosa e suas variações atualmente banham as páginas da publicação seguindo a tendência percebida nas roupas e acessórios das adolescentes contemporâneas.